8.2.10

Gula


Que Deus do céu a todos livre do incômodo,
Da infâmia que habita o bojo do pecado
De possuir o olho maior do que o estômago,
De ter esse apetite afoito, exacerbado.

Que dê misericórdia aos que passam fome,
Mas tenha mais ainda dos que não a tendo,
Enquanto há comida a vista, vão comendo,
Perdidos na madrasta ânsia que consome.

Que possa dar ajuda a tais impenitentes,
Pois mesmo sem ter nada encontram-se doentes:
Avançam no remédio e esquecem-se da bula.

Enfim, que possa dar-lhes a cura bendita
Cedendo a cada um a graça infinita.
Livrando-os do pecado vil chamado gula.


Frederico Salvo

6.2.10

Fato


Quem é que vai pagar o pato
Por esse prato tão vazio,
Por esses pés nesse chão frio,
Sempre carentes de sapato?

Quem é que vai mover a palha
E desbancar esse aparato,
Rasgar de vez esse contrato
Que injustiça atroz espalha?

Todos estão tão ocupados
Na proteção da própria pele.
Poucos atentam para o fato

Que não se isentam os culpados
De serem vítimas daquele
Que um dia foi brando e cordato.


Frederico Salvo

30.1.10

Nu (poema musicado)




Se o trem descarrilou
Não há como insistir.
Melhor, então,
Sair pulando nos dormentes pelo chão.
Um sorriso a luzir.
Nos trilhos do porvir,
O coração, deixar ir.
Não importa o quanto andar,
Nem quantos dias serão mais por caminhar
Sob o céu, sobre o chão;
Sublimar...
Tudo o que possa apagar essa luz.
Mira esse olhar onde finda o sol
E deixa esses trilhos te levar...
Nu.

Frederico Salvo

Música: Frederico Salvo / Violões: Frederico Salvo
(Gravação caseira)

28.1.10

Intempéries e infortúnios


Ah, essa navalha nas palavras
A dilacerar tua carne.
Essa ácida saliva em chuva corrosiva
A dissolver a tinta que enfeitava tua fachada.
Por que não sou mais apenas flores?
Por que não mais retiro delas os espinhos?
Tuas mãos estão feridas
E teu sangue esvai-se pelos braços...
Braços níveos qual porcelana fina.
Ah, esses punhais monossilábicos,
Essas interjeições em quádruplo sentido.
Meus olhos têm muito a dizer,
Minha pele, energia a oferecer,
No entanto, serei eu somente faca?
Carinho. Eis o que tenho.
Admiração. Amor, quem sabe.
A natureza apesar de bela
Tem suas intempéries.
Tenho meus infortúnios.
Mas haverá, como sempre houve,
Manhãs lindas...
Tardes ensolaradas.


Frederico Salvo.

25.1.10

Soneto mentiroso



Quantas musas tenho eu (tu me perguntas).
São dezenas, são centenas, são milhares.
Prostitutas, comedidas e defuntas;
As que amo e as qu’encontro pelos bares.

Todas elas têm um pouco do que quero,
Eu desejo em cada uma, todas juntas;
Umas têm as qualidades que venero,
Outras fazem como tu que me assuntas.

Nelas perco o meu juízo, me embriago
E mergulho de cabeça em cada afago
Me arriscando nesse jogo perigoso.

Não me leve muito a sério se te digo,
Que de ti apenas quero ser amigo...
Meu maior defeito... é ser um mentiroso.


Frederico Salvo

23.1.10

Lâmina


Cortou-me um quê de tristeza...
Mesmo não tendo tristeza, quê.
Poderia ser a ou érre,
um tê, um é ou um ésse;
um i ou talvez um zê.
Mas cortou-me a alma em postas,...
Sorrateira e pelas costas
A lâmina que não se vê.


Frederico Salvo

21.1.10

Os quatorze versos


Bem aqui nessa caixa hermética
Cabem sonhos, idéias e amores.
Cá dentro dessa forma estética
Avizinham-se risos e dores.

No ígneo cadinho da vida
Liquefaz-se a verdade que somos
E aqui a matéria escolhida
Se reparte em pedaços ou gomos.

Apesar de restrito o espaço
Trago sempre atada num laço
Toda a trama a que me comprometo.

Cabe assim esse mundo inteirinho,
(Como um odre a conter todo o vinho)
Nos quatorze versos do soneto.


Frederico Salvo

19.1.10

Humano


O mar... mesmo após a tormenta se agita.
Em mim não há só essa água tranqüila,
Nem só essa brisa que calma sibila.
A boca que cala é a mesma que grita.

Se fui tanto mais esse rio sereno,
Também fui a língua da fala aflita,
A dor lancinante, a palavra maldita
Que fere e inocula exato veneno.

Que saldo tens de mim tu que me sabes?
Em ti, sou eu mais que a dor dessa mágoa?
Sou mais que o vento que agita essa água?

Ninguém é só flores; ninguém é só males;
Ninguém só certeza; ninguém só engano;
Pois ser inconstante é também ser humano.


Frederico Salvo

17.1.10

Pelas colinas da minha aldeia


Será que em ti ainda evapora
O humor bendito daquela bruma?
Será que quebram, a fazer espuma,
Algumas ondas como houve outrora?

Ainda acordas de madrugada
Com um verso meu a tirar-te o sono?
Tens a presença do abandono
Mesmo que estejas acompanhada?

Pois eu confesso que aqui campeia
Pelas colinas da minha aldeia
Essa lembrança que a mim consome.

Bem no recôndito d’alma mora
A acompanhar-me p’la vida afora
Essa saudade a gritar teu nome.


Frederico Salvo