sábado, 7 de novembro de 2009

Imperfeito


Pudesse desfazer o que foi feito.
Tivesse como ter o que não posso.
Se fosse qualidade o meu defeito
E o drama de viver não fosse nosso.
Se Cristo fosse o próximo eleito
E a perna alcançasse além do passo.
Se não houvesse tanto preconceito
E a vida afrouxasse um pouco o laço.
Seria eu o mesmo que escreve
O desconsolo num soneto breve?
Seriam assim as linhas que eu traço?
Melhor que seja mesmo desse jeito,
Pois tudo o que no mundo tenho feito
É por não ser perfeito que o faço.

Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Natureza morta



Tu disseste que hoje o vaso está repleto
E a saudade aglomera-se em teu peito.
Tuas flores fazem tudo estar completo
Num arranjo muito mais do que perfeito.
Esse vaso é o meu coração de lata,
Essas flores são teus sentimentos quentes;
Quebram o gelo que o esfria, mas não mata;
Derretida pedra em tuas mãos ardentes.
Cai à noite e imponente sobre a mesa
Dorme o vaso, sob a luz da incerteza,
Da distância... aço frio que me corta.
Os teus dedos me escrevem um carinho
Que não salvam-me da dor de estar sozinho
Nos matizes dessa natureza morta.


Frederico Salvo
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Desenho de Leonardo Menescal

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Foge agora! ( Uma homenagem a Dorival Caymmi)


(Poema escrito na época do falecimento de Dorival Caymmi)


Deixa pesar sobremaneira o teu corpo
E entrega tua resistência agora
Que já não tens mais força para a guerra.
Anda, pois é quase passada a hora
E a velha chama clara se encerra
No esperar, sábio e guerreiro, que jaz morto.

Lança da tua boca o último grito
Ao mundo que te parece distante;
Aperta a mão de quem está ao teu lado.
Faça da lembrança, dileta amante
E do sonho perdido, consolado;
Arremessa teus versos ao infinito.

Da dor retira o último sorriso
E joga como semente à boa terra
Para que haja lume no teu rastro.
Sobe até o ponto mais alto da serra
E assiste ao que agora é justo e preciso;
Põe tua bandeira a meio mastro.

E dorme, e dorme, e dorme, e dorme calmo,
Pois só louco amou como tu amaste
E teu canto pela pátria se espalha
Como a grandeza bem-vinda d’um salmo
Que encanta na voz de quem encantaste;
Foge agora! Vá p’ra Maracangalha.


Frederico Salvo
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sábado, 31 de outubro de 2009

Por que me persegues?


Na estrada de Damasco...
Um susto.
Cavalos momentaneamente bípedes,
De olhos arregalados...
Arfantes.
Relinchos de apavoramento.

Um homem cai ao chão
Num estrondo surdo.

A escuridão toma conta do seu universo.

Ouvidos se abrem a uma voz interna:
_ Por que me persegues?

Depois,
Numa cama rota,
O toque de alguém que,
Guiado pela mesma voz,
Viera ao seu encontro.

A luz se fez novamente.

A partir daí,
Cólera deu lugar à obstinação;
Intemperança deu lugar à fé;
A chama passou a ser conduzida
Por aquele que antes,
Cego para muito além da cegueira,
Arrancava olhos...
Completamente desdentado...
Extraía dentes.


Frederico Salvo
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PAULO DE TARSO

O apóstolo Paulo de Tarso, cujo nome original era Sha'ul ("Saulo") (Tarso, c. 9 — Roma, c. 64) é considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus ("Yeshua") e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente.
Paulo de Tarso foi um apóstolo diferente dos demais, por ter dado maior ênfase aos irmãos gentios, pois seu chamado era destinado a eles que estavam espalhados pelo mundo (Atos 13:47). Paulo, assim comos os outros Verdadeiros Apóstolos, também teria visto Jesus Cristo (Atos 9:17, I Coríntios 15:8, dentre outros textos). Paulo era um homem culto, pois era fariseu seguidor de rabi Gamaliel. Destaca-se dos outros apóstolos pela sua cultura, considerando-se que em sua maioria era de pescadores. A língua materna de Paulo era o grego. É provavel que também dominasse o aramaico.
Educado em duas culturas (grega e judaica), Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo entre os gentios e é considerado uma das principais fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas formam uma secção fundamental do Novo Testamento. Alguns afirmam que ele foi quem verdadeiramente transformou o cristianismo numa nova religião, e não mais uma seita do Judaísmo.
Foi a mais destacada figura cristã a favorecer a abolição da necessidade da circuncisão e dos estritos hábitos alimentares tradicionais judaicos. Esta opção teve a princípio a oposição de outros líderes cristãos, mas, em consequência desta revolução, a adoção do cristianismo pelos povos gentios tornou-se mais viável, ao passo que os Judeus mais conservadores, muitos deles vivendo na Europa, permaneceram fiéis à sua tradição, que não tem um móbil missionário.

MISSÃO DE DAMASCO

Saulo, ferveroso defensor da tradição judaica (e por isso talvez mesmo um zelote), foi enviado a Damasco para fazer face à agitação dos seguidores do "Caminho".
Foi durante esta missão a Damasco que Saulo tomou o partido dos cristãos que perseguia anteriormente. Foi aqui que Paulo, indo no caminho de Damasco, já perto da cidade, viu um resplendor de luz no céu que o cercou, e caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: "Saulo, Saulo, por que me persegues?". (Atos 9.1-22) Paulo muda de lado. A esta mudança de partido ele fez corresponder uma mudança de nome. Abandonou o nome Saulo e, deste momento em diante, fez-se conhecer como Paulo.
(texto Wikipédia)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Corpo e alma


Onde termina o corpo
E onde começa a alma?
Em que recanto do organismo?
Em que célula remota?
Tenho por mim
Que são faces da mesma essência:
O corpo é alma densa;
A alma é corpo no máximo do etéreo.
Dentro de cada um
Reside uma porção do outro.
Faz-se a dança da vida
Na homogênea mistura.
Assim como a lua clara
Ilumina a noite escura.
Assim como a água fria
Abranda o calor da fervura.


Frederico Salvo
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sábado, 24 de outubro de 2009

Num canto qualquer


Num canto qualquer
Agora dorme meu nome,
Amassado num retalho.

Num canto qualquer
A solidão consome
Meu sorriso do retrato.

Num canto qualquer
Na penumbra do quarto,
Meu poema evapora.

A saudade vem,
Esmiúça, dá-me um beijo
E leva embora

Um canto qualquer
Que cantei um dia,
Que compus calado.

Foi-se a cadência do samba
Nas frases dolentes d’um fado.


Frederico Salvo
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domingo, 18 de outubro de 2009

Colcha de retalhos


Teço, como quem tece colcha de retalhos,
Unindo cada imagem dos sonhos que tenho;
E ainda os enfeito com alguns penduricalhos.
(Para que sejam versos melhores, me empenho.)
Pinto-os com cores de diversos matizes,
Para que aos olhos cheguem sempre com graça
E venham a ser, assim, como cicatrizes,
Marcas indeléveis nesse tempo que passa.
Quando mais tarde lançar os olhos, saudoso,
Por entre as frases que deixo nesses meus versos,
Quero sentir de novo o que senti um dia
E poder desfrutar novamente esse gozo,
A lembrança feliz de momentos diversos;
Retalhos de sonho, vivência, fantasia.


Frederico Salvo
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Direitos efetivso sobre a obra.