Sábado, 11 de Julho de 2009

Remoinho


Apenas murmurou o vento e eu saí atabalhoadamente a procurar os teus passos. Eles que eram tão seguros aqui na terra que me circunda. Agora somente esse vento frio e as palhas voando em remoinho. Não me coube mais as velhas botas e eu as joguei no lago, no mesmo lago onde lançavamos as pedras lisas que saltitantes cortavam o leito d’agua. Eram cristalinos os nossos sorrisos e as ondas provocadas pelas pedras nos vinham ritmadas a trazer os arroubos de sonhos.
Praticamente não há mais nada. Nem os canteiros de margaridinhas existe mais. Com elas se foram a lembranças de carícias plenas e o aroma doce das gargalhadas rasgando o silêncio das manhãs nubladas. Não há também o soar dos sinos que da capela vinham encher o quarto ainda recendendo o cheiro das nossas entregas. Se visses agora o cajueiro como parece triste. Não há frutos. As folhas estão por um fio nas hastes frágeis. E esse vento agora a soprar constante, começa a derrubá-las, uma a uma, ao romper do meu outono.


Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Compondo um soneto



Hoje pela manhã, quando abri os olhos, veio-me clara na cabeça a frase com que comecei o seu soneto: “Coloca sobre mim o teu olhar profundo”. E pude realmente senti-lo cintilante em meu quarto, na penumbra que permeava tudo. Sua silhueta bem definida e um começo de sorriso nos lábios envolviam em tranqüilidade o meu princípio de manhã.
Depois, quando sua mão tocou suavemente meu rosto, veio a segunda frase: “E põe em minha face tua mão serena”. Comecei a repetí-las lentamente, observando a métrica e onde estavam as sílabas poéticas de apoio. Fui dando ritmo a elas e vi que mereciam uma resposta para fechar a primeira quadra.
Veio-me a terceira frase: “Pois só dessa forma tem sentido meu mundo”.
Podia mesmo senti-la ao meu lado, sua mão acariciando meus cabelos. Olhei para você e recebi um lindo sorriso como sinal de aprovação.
“E a vida, só por teu sorriso, vale a pena”. A quarta frase veio como resposta ao seu ato.
Se verdadeiramente o amor tem sido um sentimento libertador e tem vindo, através dos tempos, como a busca maior de todo ser vivente, pensei ser conveniente colocar na próxima quadra, frases que falassem desse sentimento. As duas primeiras da segunda quadra vieram juntas: “Se a pena que te escreve cálido soneto” e em seguida: “Expressa todo sentimento verdadeiro”.
A penumbra do quarto começava a se desfazer, dando lugar aos primeiros raios de sol da manhã. Levantei-me apressado e entrei para o banho. Deixei-a em minha cama, adormecida, como a última imagem daquele sonho.
No chuveiro, enquanto a espuma escorria pelo meu corpo, comecei a pensar na velocidade do tempo que, inexoravelmente, nos arrasta a todos e me veio a clara certeza de que precisava fazer esse amor estar em minha vida. Precisava, sinceramente, conviver com ele.
“Não é justo o tempo tornar-me obsoleto”.
Resolvi que escreveria mesmo o soneto e que falaria de você a todos que conviviam comigo.
“Por isso grito agora, alto, ao mundo inteiro”. As frases continuavam pausadas e com essa última, acabei concluindo a segunda quadra. Faltavam agora os tercetos e foi enxugando o corpo que tive a idéia de neles me declarar a você.
Bom. As declarações, vez ou outra, costumam soar de forma piegas, carregadas de sentimentalismos fugazes, mas não deixei que isso desmanchasse as minhas idéias, que continuavam vindo como num turbilhão.
“Amo-te desenfreada e intensamente”
E ainda...
“Amo-te de uma forma linda e inesperada”
E fechando o primeiro terceto:
“Amo-te assim, de inexplicável maneira”
O último terceto me veio inteiro. Corri, me assentei de frente ao computador, coloquei o seu endereço no e-mail e digitei o seu soneto, que horas depois você leria com surpresa:

Paixão Imensurada

Coloca sobre mim o teu olhar profundo
E põe em minha face tua mão serena.
Pois só dessa forma tem sentido o meu mundo
E a vida, só por teu sorriso, vale a pena.

Se a pena que te escreve cálido soneto,
Expressa todo sentimento verdadeiro;
Não é justo, o tempo, tornar-me obsoleto,
Por isso grito agora, alto, ao mundo inteiro:

Amo-te desenfreada e intensamente,
Amo-te de uma forma linda e inesperada
Amo-te assim, de inexplicável maneira.

Gostaria de tê-la e amá-la eternamente,
Sob o signo de uma paixão imensurada;
E trazer comigo o amor; pela vida inteira.



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Beijos de quem muito te adora!





Frederico Salvo.


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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Quem me dera


Quem me dera, meu Deus, quem me dera
Que isso tudo pudesse apenas
Ter a cor das lembranças pequenas,
Gota leve ao vapor das quimeras.
Quem me dera que o peito abrigasse
O frescor de toda primavera,
E o sabor que a vida tempera
Posto ao meu paladar, agradasse.
Quem me dera volver num segundo
Teu olhar que um dia meu mundo
Envolveu em tua atmosfera.
Bastaria um átimo que fosse
Sob a luz do sorriso mais doce
Para o meu despertar. Quem me dera.


Frederico Salvo
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Incêndio


A lânguida luz do sol na janela
Convida cândida à preguiça.
Num céu de manhã domingueira,
No farfalhar do jornal na cama,
Minha libido que sua presença atiça
Acende em mim sua tórrida chama.

E faz-se o incêndio do meu amor por ela,
Que sem pressa e em silêncio a nós dois incinera
Feito lenha seca na fogueira.
E depois, ao vento, leves como cinza,
Sob a luz de um sol de primavera,
Adormecemos nus em minha cama.

Despertando então, quando a tardinha chama,
Sob o apelo do apetite,
Notando que uma brasa ainda insiste,
Novamente tudo se inflama.


Frederico Salvo
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Sábado, 20 de Junho de 2009

Inegável dependência


Desgasta-nos seguir assim em linha reta
Ao ritmo desse compasso acelerado.
Por que querer fazer do tempo uma seta
Se o tempo caminhando vai espiralado?
Respiro a brisa que me chega matutina
E traz gratuita, embriagada a energia
Que entra em mim tão benfazeja e genuína
E põe-se a circular ligeira em harmonia
Com tudo que na natureza bela pulsa,
Que segue ao todo entrelaçada e não avulsa
E torna iguais o porco-espinho e a rosa flor.
A nós, que temos o pulsar da consciência,
Cabe aceitarmos a inegável dependência
Da lei que rege o universo: A lei do amor.


Frederico Salvo
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Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Bala perdida



Uma opinião direta
É decerto de muita valia;
Clara luz na madrugada.

Mas quando ardilosa e secreta,
Cheira mais a covardia
A qualquer um endereçada.

É como um golpe no escuro;

Bala perdida e mais nada.


Frederico Salvo
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Somente sejas


Não te preocupes com o que serás para mim.
Da tua forma e com teu jeito de ser, apenas sejas.
Não te preocupes em adjetivar seja lá o que fores,
Mas larga de ti mesmo e sê inteira.
Não sejas apenas a parte, o gesto contido;
Sê o todo, porque o todo é tua melhor parte.
Quando te lembrares de mim, lembra com liberdade;
Não te cobro nada.
Solta tuas amarras e exorciza teus medos.
Seja lá o que fores; Peço-te um favor:
Somente sejas.


Frederico Salvo
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