13.8.13

Abraço-me


Nu, nem sei como cheguei até aqui.
Vim de longe, muito longe...
Lembrei-me de, entre tantos,
Escolher um dia um caminho,
Uma pequena trilha de terra batida.
Entretanto, por esse mesmo caminho simples,
Que teve por sinalização apenas estrelas,
Cheguei frente a frente a mim mesmo.
Assim, trazendo comigo a poeira da estrada,
Abraço-me.


Frederico Salvo

29.7.13

Refrigério


" Comprazei-vos, ó Deus; em me livrar;
Depressa, Senhor:
Vinde em meu auxílio".
(Salmos 69:2)

Eis que, na sombra do meio dia,
Curta, minguada e aos meus pés
Surgiu um refúgio.
Eu que olhava o sol
E sentia suas propriedades ígneas,
As vaporizações sufocantes,
Os consequentes suores indesejáveis,
Não reparei-a a gritar meu nome
E a indagar:
Lembra-te de mim?
Eu sou filha do frescor da noite
Que provaste um dia.
Caminha em frente,
Reúne forças,
Porque ainda hoje
Baterei inteira em tua porta
E serei teu refrigério.


Frederico Salvo


14.7.13

Parto


Parto em dois
os descompassos dessa vida.
E antes que o não sonhar
intente o parto,
parto.


Frederico Salvo

10.7.13

Bruta flor

Exatamente hoje faz um ano,
Que por ser bruta flor parece dez.
Um período difícil e, salvo engano,
Da fieira da vida, um viés.

A princípio: estúpido, insano;
Pelo meio: o estouro das marés;
Pela fé? Um autêntico oceano
Sob a ótica e a certeza de Moisés.

Acredito (pois é só o que me resta)
Na vivência adquirida nesse ano,
Que por ser bruta flor parece dez.

Tens, amigo, meu convite para a festa
A essa flor, ontem bruta, hoje me irmano

Vencida... desfolhada... aos meus pés.


Frederico Salvo



5.7.13

Cabe em minha mão



Cabe em minha mão, presumo,
Toda a dimensão da vida.
Tudo de sonhar, a direção, o prumo,
Cabe em minha mão.

Cabe em minha mão, espero,
Tudo a se forjar na lida.
A dedicação, o farejar, o esmero,
Cabe em minha mão.

Cabe em minha mão, confio,
O seio teu minha querida.
O sussurrar, o apogeu, o cio,
Cabe em minha mão.

Cabe em minha mão.


Frederico Salvo

25.6.13

Enxurro



Língua que te quero água,
Mata-me a sede nesse deserto.
Dita-me os versos que saciam.
Dá-me metáforas exatas
Nas calhas das entrelinhas.
Seja como as nuvens espessas de chumbo
E derrame, monossilabicamente,
A síntese de todas as chuvas.
Que verta nesse enxurro todas as palavras.


Frederico Salvo

6.6.13

Peixe



A pena estanca, para, titubeia...
Nenhuma idéia clara se apresenta.
Meu pensamento voa, devaneia
E sobre à beira d''água se assenta.

Sou pescador agora e para a ceia
Quero pirão de peixe com pimenta.
Cevo o remanso, acendo a candeia
E lanço o anzol com isca suculenta.

Esse exercício é pura paciência,
Pois tenho fome e fé em evidência.
(E a segunda, trago como lema).

Sinto um tremor mexer o molinete,
Aguço o olhar, respiro em falsete...
E num rompante fisgo o poema.


Frederico Salvo

2.6.13

Talento

Ressalta.
Não faça prisioneiro
o teu talento.
A natureza
nunca inibe o vento
Mesmo que ofenda a tua vista
ou seja como técnica cubista:
Um sopro de assombro violento.

Rebata.
Hão de julgar-te
tolo, convencido,
Hão de deixar-te
À parte, esquecido,
No afã de minorarem tua verve,
Essa que em teu peito agora ferve,
Sempre contigo aonde tenhas ido.

Cala.
Respira.
Volta a caminhar
Mesmo que lento.

Anda...

(sussurrado ao pé do teu ouvido):

Não faça prisioneiro
O teu talento.


Frederico Salvo