26.10.13

Sobre um soneto


No princípio um soneto é só vontade
É um cesto de motivos infindáveis.
Por ser pulso criativo é liberdade,
Nascedouro de afãs intermináveis.

Se uns versos ganham a folha, distraídos,
Outros tantos no alforje se arvoram
A estarem, como eu, comprometidos
E com fome desmedida me devoram.

Diluído me desfaço em quartetos,
Liquefaço minha alma em tercetos,
Sou as velas d'uma nau que encontra o vento.

Quando vale este instante, desconheço,
Pois dar vida a um soneto não tem preço.
Sou um pai a ter nos braços um rebento.


Frederico Salvo


13.8.13

Abraço-me


Nu, nem sei como cheguei até aqui.
Vim de longe, muito longe...
Lembrei-me de, entre tantos,
Escolher um dia um caminho,
Uma pequena trilha de terra batida.
Entretanto, por esse mesmo caminho simples,
Que teve por sinalização apenas estrelas,
Cheguei frente a frente a mim mesmo.
Assim, trazendo comigo a poeira da estrada,
Abraço-me.


Frederico Salvo

29.7.13

Refrigério


" Comprazei-vos, ó Deus; em me livrar;
Depressa, Senhor:
Vinde em meu auxílio".
(Salmos 69:2)

Eis que, na sombra do meio dia,
Curta, minguada e aos meus pés
Surgiu um refúgio.
Eu que olhava o sol
E sentia suas propriedades ígneas,
As vaporizações sufocantes,
Os consequentes suores indesejáveis,
Não reparei-a a gritar meu nome
E a indagar:
Lembra-te de mim?
Eu sou filha do frescor da noite
Que provaste um dia.
Caminha em frente,
Reúne forças,
Porque ainda hoje
Baterei inteira em tua porta
E serei teu refrigério.


Frederico Salvo


14.7.13

Parto


Parto em dois
os descompassos dessa vida.
E antes que o não sonhar
intente o parto,
parto.


Frederico Salvo

10.7.13

Bruta flor

Exatamente hoje faz um ano,
Que por ser bruta flor parece dez.
Um período difícil e, salvo engano,
Da fieira da vida, um viés.

A princípio: estúpido, insano;
Pelo meio: o estouro das marés;
Pela fé? Um autêntico oceano
Sob a ótica e a certeza de Moisés.

Acredito (pois é só o que me resta)
Na vivência adquirida nesse ano,
Que por ser bruta flor parece dez.

Tens, amigo, meu convite para a festa
A essa flor, ontem bruta, hoje me irmano

Vencida... desfolhada... aos meus pés.


Frederico Salvo



5.7.13

Cabe em minha mão



Cabe em minha mão, presumo,
Toda a dimensão da vida.
Tudo de sonhar, a direção, o prumo,
Cabe em minha mão.

Cabe em minha mão, espero,
Tudo a se forjar na lida.
A dedicação, o farejar, o esmero,
Cabe em minha mão.

Cabe em minha mão, confio,
O seio teu minha querida.
O sussurrar, o apogeu, o cio,
Cabe em minha mão.

Cabe em minha mão.


Frederico Salvo

25.6.13

Enxurro



Língua que te quero água,
Mata-me a sede nesse deserto.
Dita-me os versos que saciam.
Dá-me metáforas exatas
Nas calhas das entrelinhas.
Seja como as nuvens espessas de chumbo
E derrame, monossilabicamente,
A síntese de todas as chuvas.
Que verta nesse enxurro todas as palavras.


Frederico Salvo