9.3.10

Nota de falecimento


E por querer ser mais a todo custo,
E ser um imortal, talhado em busto,
Foi que lhe padeceu a humildade.

A água que era clara se fez turva,
A reta que era leve se fez curva,
Do homem que era simples, só saudade.

Futuro se perdeu em brevidade.

Morreu a sensatez; ficou o susto.



Frederico Salvo.

6.3.10

Seus olhos são os olhos do mundo


Seus olhos são os olhos desse mundo,
Perdidos nos meandros dos meus versos.
E sabem como ir bem mais profundo,
Nas comas dos meus sonhos submersos.

Seus olhos são os olhos desse mundo
E podem enxergar, mesmo dispersos,
Na ínfima passagem d’um segundo,
A sede dos meus ditos controversos.

Seus olhos são janelas que convidam
À brisa do que sou a ir mais fundo,
Lutando contra o vento adverso.

E além das nuvens claras que navegam
No azul do céu (abóbada do mundo),
Seus olhos são os olhos d’universo.


Frederico Salvo

2.3.10

Indesejada imprudência


Enquanto houver um prato desprovido de comida
E contra isso não se desprender maior esforço.
Enquanto imperar essa razão subnutrida
E tantos estiverem de descaso até o pescoço.
Sobrevirá a tudo, acorrentada, a violência,
Pois cada um que morre ignorado, pele e osso,
Induz a outros tantos a saírem desse fosso,
Usando (seja lá qual for) insana providência.
Ignorar a voz que clama exasperada e clara,
É encontrar-se nu e esconder somente a cara,
É estar resignado quando ainda há saída.
Aquele que, egoísta, assassina a consciência,
Abraça, conivente, a indesejada imprudência
De alimentar a morte... de deixar morrer a vida.


Frederico Salvo

27.2.10

Ainda é festa


Dança, enquanto há no ar
fusas, semifusas e colcheias,
a romperem o silêncio.
Porque ainda é festa
mesmo que não pareça.
Dança, enquanto estão pintados
os rostos...
e os palhaços ainda estão em cena.
Por trás da coxia
Não é farta a alegria.
São mais humanos os palhaços.
Dança, enquanto são maleáveis
as articulações
E o corpo ainda obedece
aos teus passos.
Dança, enquanto há vivas e sorrisos
E mesmo que haja choro
Não te aflijas feito criança.
Tome a ti mesmo nos braços,
ouça o compasso...
E dança.


Frederico Salvo

20.2.10

Soneto sobre o nada


Não sei exatamente o que falar agora.
Portanto, resolvi escrever sobre o nada.
Começo retirando os minutos das horas;
Números, ponteiros, arranco e lanço fora.

Balanço cada página do meu diário
E junto meus poemas todos na lixeira.
Desmancho cada data do meu calendário
E guardo meus anseios vãos na geladeira.

Eu solto da janela as penas da saudade
E uma a uma apago as luzes do futuro.
No ralo do banheiro a razão atiro.

Enterro no quintal lembranças de amizade,
Depois na minha cama, no meu quarto escuro...
Deitado, fecho os olhos, esqueço e não respiro.


Frederico Salvo

8.2.10

Gula


Que Deus do céu a todos livre do incômodo,
Da infâmia que habita o bojo do pecado
De possuir o olho maior do que o estômago,
De ter esse apetite afoito, exacerbado.

Que dê misericórdia aos que passam fome,
Mas tenha mais ainda dos que não a tendo,
Enquanto há comida a vista, vão comendo,
Perdidos na madrasta ânsia que consome.

Que possa dar ajuda a tais impenitentes,
Pois mesmo sem ter nada encontram-se doentes:
Avançam no remédio e esquecem-se da bula.

Enfim, que possa dar-lhes a cura bendita
Cedendo a cada um a graça infinita.
Livrando-os do pecado vil chamado gula.


Frederico Salvo

6.2.10

Fato


Quem é que vai pagar o pato
Por esse prato tão vazio,
Por esses pés nesse chão frio,
Sempre carentes de sapato?

Quem é que vai mover a palha
E desbancar esse aparato,
Rasgar de vez esse contrato
Que injustiça atroz espalha?

Todos estão tão ocupados
Na proteção da própria pele.
Poucos atentam para o fato

Que não se isentam os culpados
De serem vítimas daquele
Que um dia foi brando e cordato.


Frederico Salvo

30.1.10

Nu (poema musicado)




Se o trem descarrilou
Não há como insistir.
Melhor, então,
Sair pulando nos dormentes pelo chão.
Um sorriso a luzir.
Nos trilhos do porvir,
O coração, deixar ir.
Não importa o quanto andar,
Nem quantos dias serão mais por caminhar
Sob o céu, sobre o chão;
Sublimar...
Tudo o que possa apagar essa luz.
Mira esse olhar onde finda o sol
E deixa esses trilhos te levar...
Nu.

Frederico Salvo

Música: Frederico Salvo / Violões: Frederico Salvo
(Gravação caseira)

28.1.10

Intempéries e infortúnios


Ah, essa navalha nas palavras
A dilacerar tua carne.
Essa ácida saliva em chuva corrosiva
A dissolver a tinta que enfeitava tua fachada.
Por que não sou mais apenas flores?
Por que não mais retiro delas os espinhos?
Tuas mãos estão feridas
E teu sangue esvai-se pelos braços...
Braços níveos qual porcelana fina.
Ah, esses punhais monossilábicos,
Essas interjeições em quádruplo sentido.
Meus olhos têm muito a dizer,
Minha pele, energia a oferecer,
No entanto, serei eu somente faca?
Carinho. Eis o que tenho.
Admiração. Amor, quem sabe.
A natureza apesar de bela
Tem suas intempéries.
Tenho meus infortúnios.
Mas haverá, como sempre houve,
Manhãs lindas...
Tardes ensolaradas.


Frederico Salvo.