Enquanto houver um prato desprovido de comida E contra isso não se desprender maior esforço. Enquanto imperar essa razão subnutrida E tantos estiverem de descaso até o pescoço. Sobrevirá a tudo, acorrentada, a violência, Pois cada um que morre ignorado, pele e osso, Induz a outros tantos a saírem desse fosso, Usando (seja lá qual for) insana providência. Ignorar a voz que clama exasperada e clara, É encontrar-se nu e esconder somente a cara, É estar resignado quando ainda há saída. Aquele que, egoísta, assassina a consciência, Abraça, conivente, a indesejada imprudência De alimentar a morte... de deixar morrer a vida.
Dança, enquanto há no ar fusas, semifusas e colcheias, a romperem o silêncio. Porque ainda é festa mesmo que não pareça. Dança, enquanto estão pintados os rostos... e os palhaços ainda estão em cena. Por trás da coxia Não é farta a alegria. São mais humanos os palhaços. Dança, enquanto são maleáveis as articulações E o corpo ainda obedece aos teus passos. Dança, enquanto há vivas e sorrisos E mesmo que haja choro Não te aflijas feito criança. Tome a ti mesmo nos braços, ouça o compasso... E dança.
Não sei exatamente o que falar agora. Portanto, resolvi escrever sobre o nada. Começo retirando os minutos das horas; Números, ponteiros, arranco e lanço fora.
Balanço cada página do meu diário E junto meus poemas todos na lixeira. Desmancho cada data do meu calendário E guardo meus anseios vãos na geladeira.
Eu solto da janela as penas da saudade E uma a uma apago as luzes do futuro. No ralo do banheiro a razão atiro.
Enterro no quintal lembranças de amizade, Depois na minha cama, no meu quarto escuro... Deitado, fecho os olhos, esqueço e não respiro.
Que Deus do céu a todos livre do incômodo, Da infâmia que habita o bojo do pecado De possuir o olho maior do que o estômago, De ter esse apetite afoito, exacerbado.
Que dê misericórdia aos que passam fome, Mas tenha mais ainda dos que não a tendo, Enquanto há comida a vista, vão comendo, Perdidos na madrasta ânsia que consome.
Que possa dar ajuda a tais impenitentes, Pois mesmo sem ter nada encontram-se doentes: Avançam no remédio e esquecem-se da bula.
Enfim, que possa dar-lhes a cura bendita Cedendo a cada um a graça infinita. Livrando-os do pecado vil chamado gula.
Se o trem descarrilou Não há como insistir. Melhor, então, Sair pulando nos dormentes pelo chão. Um sorriso a luzir. Nos trilhos do porvir, O coração, deixar ir. Não importa o quanto andar, Nem quantos dias serão mais por caminhar Sob o céu, sobre o chão; Sublimar... Tudo o que possa apagar essa luz. Mira esse olhar onde finda o sol E deixa esses trilhos te levar... Nu.
Ah, essa navalha nas palavras A dilacerar tua carne. Essa ácida saliva em chuva corrosiva A dissolver a tinta que enfeitava tua fachada. Por que não sou mais apenas flores? Por que não mais retiro delas os espinhos? Tuas mãos estão feridas E teu sangue esvai-se pelos braços... Braços níveos qual porcelana fina. Ah, esses punhais monossilábicos, Essas interjeições em quádruplo sentido. Meus olhos têm muito a dizer, Minha pele, energia a oferecer, No entanto, serei eu somente faca? Carinho. Eis o que tenho. Admiração. Amor, quem sabe. A natureza apesar de bela Tem suas intempéries. Tenho meus infortúnios. Mas haverá, como sempre houve, Manhãs lindas... Tardes ensolaradas.