30.12.09

De que cor era teus olhos?


De que cor era teus olhos?
Verdes? Talvez.
Azuis? Já não me lembro.
Olhos, quem sabe, negros...
Como a noite que há agora.

Sei que neles, pela primeira vez,
Mergulhei nu de pele e alma.
Da retina, deslizei ao canto
E rolei como uma lágrima...
Um oceano de vida condensado numa gota.

Tua boca sorveu-me salobro
E adentrei para além do teu físico,
Transcendendo tuas mucosas quentes
Na vaporização dos teus humores...
E então sussurraste-me ao ouvido: _Amor.

Mas a vida escorreu num declive,
Apossando-se o tempo, das horas.

E eu, aqui,
Já nem me lembro mais
Qual era a cor dos teus olhos.


Frederico Salvo


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24.12.09

Elipse interrompida



Se há ciclos naturais que se fecham perfeitamente
Como o evaporar da água e o precipitar da chuva,
Como os dias e noites que se encaixam como luva,
Cedendo lugar um ao outro... sucessivamente.
Ou ainda como a semente, essência dentro da fruta,
Que mais tarde engravida a terra e vinga germinando
Dando seqüência à vida que contínua vai girando
Num desenrolar infindável, numa eterna permuta;
Sigo a pensar solitário sobre algo que me intriga:
Se todo ciclo se fecha; isso nos dá um norte.
Há uma coisa incompleta, uma elipse interrompida,
Uma peça sem encaixe, uma ponta que não liga.
Se na vida, naturalmente, encontraremos a morte;
Na morte, certamente, há que se encontrar a vida.


Frederico Salvo


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19.12.09

Poema para Marina


(Esse poema foi feito há alguns meses para Marina, filha da minha querida amiga Helen de Rose.
O que me levou a fazer essa pequena homenagem foi um texto da Helen chamado "Marina seu desafio é sobreviver...".


Não sei, Marina, como é teu rosto;
Não sei sequer a cor dos olhos teus.
Escrevo agora aqui com muito gosto
Por tua vida, a qual elevo a Deus
Numa prece deveras comovida,
Em estrofes repletas de emoção,
E peço a Ele que te sejas concedida
Toda força desse mundo ao coração.
Porque desde menina foste entregue
Para que Deus-Pai, Marina, a carregue.

Não há como medir, os braços leigos,
O peso desse fardo que carregas
Eu fico a imaginar teus olhos meigos
Eu tento enxergar, mas fico às cegas,
A força que em ti vive calada,
A luz divina viva em teu semblante
A tudo ilumina nessa estrada
E ofusca até a mim, mesmo distante.
Porque desde menina foste entregue
Para que Deus-Pai, Marina, a carregue.

Fiquei sabendo assim em texto breve
Das dores lancinantes dessa sina.
Saiu da mão de quem tão lindo escreve,
Da mão de tua mãe, linda Marina.
Eu li aqui sozinho no meu canto,
Fiquei a par da tua dor extrema,
Soou-me como um triste acalanto
E eu vim orar por ti nesse poema.
Porque desde menina foste entregue
Para que Deus-Pai, Marina, a carregue.



Frederico Salvo.
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14.12.09

Sobre bichos e anjos


Deixemos que nossos bichos extravasem os limites das jaulas
E venham aos nossos corpos febris de desejo
Arrancando a nossa segunda pele
Moldada pelo ranço que castra,
Pela manta hipócrita e madrasta.
E nos afoguemos no jorro dos líquidos corpóreos
E nos dedos que passeiam espontâneos pelos corpos
E na sã insensatez de lancinantes beijos;
E que nossas bocas se abram às palavras certas
Aos sussurros desconsertantes que alucinam
E aos que, em baixo calão, nos embriagam.
E que nos lancemos juntos na explosão do gozo,
Quando os olhos vêem, mas não distinguem,
Quando a língua nem sabe que vive na boca
E em transe pronuncia outros idiomas;
Depois deixemo-nos ficar sobre o leito
Até que os bichos nos deixem a carcaça
E possam se apossar de nós, com suave graça,
Os anjos que precisam ser o oposto disso tudo.


Frederico Salvo


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6.12.09

Soneto ferido


Queria dizer-te do amor, dos enganos
E das armadilhas que há nos caminhos.
Do que eu colhi ao longo dos anos,
Do cheiro da flor, da dor dos espinhos.
Queria dizer-te do quanto fiz planos,
Do quanto quis ter de novo teus carinhos.
E mesmo afirmar que, apesar de insanos,
Meus versos são aves que voltam p’ros ninhos
A procura de abrigo p'la noite escura,
Em busca de pouso p'la vida dura,
Que arrulham sozinhas p'la madrugada
Soluços do nosso convívio perdido. . .
Assim como esse soneto ferido
Somente é saudade feroz. . . e mais nada.


Frederico Salvo


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28.11.09

Alice no país das aparências


Por mais que o tempo passe eu me recuso
A dar por finda a alma de menino,
Porque se faço assim me tenho excluso
E sendo só adulto me confino

No rol da pequenez e da mesmice
Que abunda nesta terra tão tacanha;
Melhor viver assim como Alice
Do que me aventurar nesta façanha

De dar à vida, assim, um tom tão sóbrio
Ou boicotar-me à sombra do status
Por ter que digerir incoerências.

Prefiro ser menino a ser tão óbvio;
Viver se repetindo aos mesmos fatos,
Bailando no país das aparências.


Frederico Salvo


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24.11.09

Fogo príncipe



D’onde vem energia tanta
Que põe ímpeto em tuas veias?
D’onde surge essa fúria santa
Para ires onde anseias?
D’onde flui a ancestralidade
Que a ti trouxe o fogo príncipe?
D’onde virá essa verdade,
Ápice vivo dessa cúspide?
Vem de remotas vivências;
Complexa genealogia
Intrínseca nos passados teus;
E essa vem da transcendência,
Da luminosidade que guia
Que acostumaste a chamar de Deus.

Frederico Salvo



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21.11.09

Em suspenso


Adormece, vida. Adormece.
E eu entrego-me a minha cama.
Em suspenso põe o nosso drama.
Enquanto esqueço, tu me esqueces.
Adormece, pois quem me ama
Já está guardado numa prece
E as dúvidas, que bem conheces,
Estão no bolso do pijama.
Adormece e por fim descansa
Das tarrafas que o convívio tece
E depois em nossas águas lança.
Vá. Repousa, pois a mim parece
Que por hoje basta essa aliança.
Boa noite, vida. Adormece.


Frederico Salvo



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18.11.09

Vento interno


As nuvens rajadas do céu de abril
Chegaram sob a força de um vento
Que passou pelo meu rosto,
Beijando-me os olhos e lábios.

Em raios ainda tímidos, o sol,
Pela manhã, trouxe um abraço leve
Em sua energia pura de fogo
Sobre o meu costado nu.

Distraio-me com o balanço das folhas,
Açoitadas por esse mesmo vento.
Ainda não sabem que em poucos dias
O outono as jogará ao solo.

Serão apenas uma lembrança
Daquilo que um dia foram.

Há em mim também um vento interno
A balançar-me em saudade.
Sou um galho seco,
Um caniço solitário.

Vai distante a primavera.
As imagens que um dia foram flores
Adubaram o solo da minha terra
E fui um caule em desenvolvimento.

Senti a seiva dentro de mim,
Circulando pelas veias.
Alguns vieram depois
E deitaram-se sob minha sombra.

Houve deleite em sorrisos alegres
Antes do meu primeiro outono.
Depois caíram-me as folhas,
Aos meus pés, sombra não mais havia.

Perderam-se os sorrisos alegres...
os votos eternos...
Eu prossegui, resignado,
Às voltas com um monstruoso inverno.


Frederico Salvo.
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