12.4.11

A cor da paciência


O tempo voa e eu insisto em ir valsando,
Pois não me leva a pressa à terra outra
Além da mesma terra que sonhando
Eu sempre quis aquém da ânsia louca.

Eu quero o passo certo, a vela solta
Ao vento nobre que não seja furibundo,
Eu quero exato ímpeto e não revolta
Alimentando a chama do meu mundo.

Quero dançar um xote ritmado,
Ir esquecendo o modo apressado
Que imprimiram a nossa existência.

E quando um dia houver encontrado
Seja o que for que haja do outro lado,
Peço que tenha a cor da paciência.


Frederico Salvo

8.4.11

Alma


O que é exatamente o que chamam de alma?
Um nada que sustenta o todo do mundo?
Luz que bruxuleia semovente, calma,
Naquilo que a vida tem de mais profundo?

Seria tão somente fogo momentâneo
A alimentar feroz o tempo passageiro?
Ou parte de verdade santa, verossímil,
Daquilo que seria verdade por inteiro?

O que sustenta o corpo? O que dá rumo aos passos?
Que chama unifica todos os compassos?
O que te faz alegre ou te torna triste?

Naquele que indaga vivo, consciente,
Existe a resposta rápida, pungente:
A alma é quem pergunta se a alma existe.


Frederico Salvo

5.4.11

O timoneiro


Decerto serei eu o timoneiro
A desbravar as águas do oceano
Que hora eu encontro traiçoeiro
E noutra em calmaria vou singrando.

Não há como fugir dessa peleja
E nem abdicar a esse comando
E mesmo quando em dor, bendita seja,
A ação de ir em frente navegando.

Porque em toda dor a alegria
Repousa sutilmente alva, clara;
E em toda realidade há fantasia.

A vida é mesmo pedra muito rara
E a noite esconde a luz de todo dia...
A luz da vida... sempre muito cara.


Frederico Salvo

1.4.11

Na luz dos olhos teus


Eu vi a vida na luz dos olhos teus.
O chão...
A árvore...
O porto da lágrima incontida.
O barco...
O aceno. Ele me pareceu estático.
Definitivo.
O globo onde tudo parasse
A fazer sentido.
Seus olhos eram como mãos a me tocarem,
Braços a abraçarem,
Boca a me beijar a boca.
Neles havia a mulher e a menina,
A velha e a moça,
O ocaso e o meio-dia.
Eu continuaria a olha-los pela vida toda
Sem sentir sede nem fome,
Frio ou sono.
Fecho meus olhos e continuo a vê-los
A iluminarem o avesso
De tudo aquilo que não possuo.


Frederico Salvo

26.3.11

A maré (poema musicado)

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Extraído do poema de mesmo nome, de minha autoria, publicado aqui em setembro de 2010.


És minha lua.
És Sim.
E em mim toda essa maré,
Como flutua, assim,
Em tua direção.
Todas as vagas, enfim,
Toda essa luz do leito meu
É toda tua.
És minha lua.

Um imã lá no céu
Que anuncia
Que muito além
Do meu dossel de fantasia
Existe uma atração
E a flor da água
Quer ir ao rumo teu
Por essa via.

Lua...

Lua...


poema e música: Frederico Salvo


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23.3.11

Entre a cruz e a espada



Se o que me é claro às vezes contradigo
E me coloco a agir como não penso,
Firo-me à luz desse contra-senso
Fazendo de mim o meu próprio inimigo.

Como é mordaz a métrica do pecado,
Que em sua sedução rapta a consciência
E a desnuda entre o deleite e a prudência
Ante a face do desejo protelado.

Eu me sinto entre a cruz e a espada;
A certeza frente a isso é quase nada.
Sou presa fácil à mercê desse vil laço.

Se pareço, aos teus olhos, tão confuso,
Falo-te já (Pois sei que ao erro te induzo):
Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.


Frederico Salvo

19.3.11

Soneto sobre a saudade (republicado)



Olá queridos leitores.

Especialmente volto a publicar por aqui o meu "Soneto sobre a saudade", dessa vez para prestar uma homenagem ao amigo e radialista Odair Silveira que faleceu essa semana. Odair elegeu alguns dos meus poemas para fazerem parte do seu programa. Não o conheci pessoalmente, mas deixo aqui a minha homenagem a esse amigo e também o meu desejo de sabê-lo em melhor lugar. Ressalto a grande interpretação que Odair deu a esse poema.

Música após o soneto: "Onde anda você" de Toquinho e Vinícius de Moraes, na voz de Altemar Dutra.



Quando você se vai a saudade aparece.
Implacável permeia minha existência.
E chego a pensar que é como se ela quisesse,
Por vontade própria, celebrar convivência.

Apressa-se em fazer, do meu peito, morada,
Compondo sorrateira a sua cantiga
Para fazer serenata de madrugada
E dragar, assim, minh’alma combalida.

Mas eu me aprumo e desfiro um golpe certeiro
Bem na fronte da saudade fria e malvada,
Encostando-lhe o sabre sobre a lapela.

E assim, estando em seu minuto derradeiro,
Sorri sabendo que eu não posso fazer nada,
Pois é seu rosto que está no rosto dela.



Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.

17.3.11

Prefácio

Empenho. Amálgama da minha sorte.
Eu na toada da noite venho
Até que um sol no horizonte aporte.

E já que a única razão que tenho
É estancar o sangue desse corte
Melhor fazê-lo sem franzir o cenho,

Posto que a vida é o prefácio da morte.


Frederico Salvo

15.3.11

Poesia



A partir do momento
Em que saíste de mim,
Não és mais parte minha;
És parte do todo
E deverás ir buscar conexões
Com outras almas.


Frederico Salvo