13.3.11

O avesso das coisas


Onde houver luz existirá sombra.
Habitam juntas tristeza e alegria.
O breu da madrugada que agora assombra,
Quando alcançar o ápice será dia.

A água boa que debela a tua sede
Passeou n’alguma nuvem, evaporada.
Esse sono embalado em tua rede
Foi vigília quando veio a alvorada.

E do nada todas as coisas surgem;
Acho o avesso quando digo uma palavra.
Houve o feio quando a boca disse: _ Belo!

Pode intensa clareza ser vertigem.
Água calma poderá ser onda brava;
Como o prego tem por oposto o martelo.


Frederico Salvo

3.3.11

Não há que se dizer mais nada


O fogo que há em ti
É o mesmo que me queima.
Em mim pode agitar a alma
E atormentar os pensamentos
Em ti pode ser apenas
Uma branda chama apática.
Pode ser que em ti
Não consiga aquecer a melancolia
E nem iluminar-te os olhos,
E em mim seja calor eufórico
A brasa da minha língua,
Mas será sempre o mesmo fogo.
O mesmo que na natureza
Vai adubar a terra
Onde então a semente
Estabelecerá sua morada.

A terra que há em ti
É também a mesma que me firma.
Em mim pode ser ressequida
E devorar qualquer umidade.
Em ti pode ser fecunda
Casa de todo verde.
Pode ser que em ti
Seja estrada que encaminhe
E te encha de viço os lábios,
E em mim seja apenas deserto
A sede na minha boca,
Mas será sempre a mesma terra.
A mesma que na natureza
Vai abrigar a pedra
Onde a água cristalina
Brotará como encantada.

A pedra que há em ti
É a mesma em que me assento.
Em mim pode ser início
A base da fortaleza.
Em ti pode ser estorvo,
Lápide indesejada.
Pode ser que em ti
Seja peso sobre os ombros
Ou lhe feche as narinas,
E em mim seja solo seguro
Onde não se conhece a tristeza.
Mas será sempre a mesma pedra.
A mesma que na natureza
No âmago da sua dureza
É berço de toda água.

A água que há em ti
É a mesma que me sacia.
Em mim pode ser escassa
A fonte de todo medo.
Em ti pode ser que farte
Dádiva pura e sagrada.
Pode ser que em ti
Seja rio caudaloso
Ou mar de completa abundância,
E em mim seja ínfima gota
Inexpressiva em meu deserto.
Mas será sempre a mesma água.
A mesma que na natureza
Vai hidratar a semente
Da árvore tão esperada.

A árvore que há em mim
É a mesma que em ti aflora.
Em mim pode ser frondosa
Sombra ao meio-dia.
Em ti pode ser esquálida,
Frágil, mero caniço.
Pode ser que em ti
Seja baixa e retorcida
Ou cacto de pura ira
E em mim seja forte e frutífera
Esteio da minha rede.
Mas será sempre a mesma árvore.
A mesma que na natureza
É mais suscetível ao fogo
Quanto mais é ressecada.

E agora, se me permite,
Não há que se dizer mais nada.
Basta só entender que a vida,
Em nuances repartida,
Nunca foi fragmentada.



Frederico Salvo

22.2.11

Preferências (poema musicado)


Extraído do poema de mesmo nome de autoria de José Silveira.
Música: Frederico Salvo
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por causa de um osso
o homem vira cão.
se ambos
sem corda e caçamba
caírem num poço;
talvez roam o osso,
mas, por fim, soçobrarão.
enfim serão em duo
alvo de notícia póstuma
em letras miúdas,
na última edição
tão sem importância,
num canto qualquer
de qualquer folhetim.
É assim.


Extraído do poema de mesmo nome de autoria de José Silveira.
Música: Frederico Salvo

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20.2.11

Caricatura


Hoje acordei com essa tristeza imperatriz;
Tentando desvencilhar-me dos meus defeitos,
Das minhas mazelas.
Tinha o cenho franzido, um apertar no peito;
Um desinteresse pelas coisas e ao mesmo tempo,
Contraditório que sou, uma grande necessidade delas.
Hoje acordei desconhecendo a mim mesmo,
Sem saber onde se escondera meu humor fácil,
Minhas gotas de euforia.
Olhei-me no espelho e confesso ter sido difícil
Ver refletido em meus olhos aquele brilho frio
Que até a bem pouco tempo desconhecia.
Hoje acordei com a barba por fazer
E os cabelos desgrenhados,
Uma caricatura do eu que sai às ruas todos os dias,
Que enfrenta lá fora a vida dura,
Que sorri aos colegas no trabalho;
Eles que nem sabem da existência desse outro,
Que hoje pela manhã se viu refletido;
Sob a mira de duas íris frias.


Frederico Salvo

17.2.11

Fato consumado


Sem ti eu sinto que o mundo tropeça
E vou seguindo feito embriagado.
Coxo é meu samba, mais triste meu fado,
E vão dar em tango febril. Já não cessa

N’oco do peito esse grito abafado
Que guarda em si uma dor que tem pressa,
Que desencanta o mundo e perpassa
O fundo d’agulha que tece o bordado.

Meu rio se arrasta, meu lago pranteia,
Tudo que anima meu ser perde a graça,
Nem sombra sou do que fui no passado.

Na fina prata à luz da lua cheia
Só uma verdade enche minha taça:
Sem ti a saudade é fato consumado.



Frederico Salvo

12.2.11

Longe


Tive um corpo.
Tive um corpo;
Tive um corpo...
Mas meu pensamento
Continuou ancorado em ti.
Vi-me morto
Ao sentir jorrar meu rio
Num oceano rubro,
Longe das águas verde-esmeralda
Do teu mar sereno.
E ao estremecer das pernas
E o quedar do corpo,
Vi meu pranto rolar silencioso
A quilômetros dali,
Sob um céu negro, sem estrelas.
Meu anelo, ainda acorrentado,
Brincava cego num pensamento absorto;
Absorto...
Absorto;
Absorto.


Frederico Salvo

5.2.11

Amor ao cair da tarde (sonetos conjugados)


I

Entro e estaco diante de ti
Que ressona deslumbrante e nua.
Curvilínea anca que é só tua
E que de igual feitiço eu nunca vi.

Pêlos claros na pele queimada
Douram-te à silhueta esguia
Sob a parca luz do fim do dia
Que ao teu corpo vem enamorada.

Teus cabelos longos sobre os ombros
Deixam minh’alma sob os escombros
Do desejo que me vem em marés,

Como ondas ao rugir do vento.
Eu, entorpecido, não me agüento
E louco, começo a beijar-te os pés.

II

Reages rápida num instinto,
Recolhendo a perna num rompante.
Tiras os cabelos negros da fronte,
Tonta como quem bebe absinto.

Mas logo percebes minha astúcia;
Lês nos meus olhos o meu intento
E então, num espreguiçar-te lento,
Serves teus pés à minha volúpia.

Beijo-te a carne das coxas mornas,
Cravo-te as unhas, mordo-te os flancos,
Sinto o teu cheiro invadir o quarto.

Enquanto gemes baixo, eu me farto,
Percorrendo, um a um, teus encantos;
Sorvendo-te o sumo que entornas.


III

Sobre ti meu corpo agora freme.
Idas e vindas ao bel compasso;
Prendes meu corpo como num laço;
Mil solavancos. O leito treme.

Palavras soltas, entrecortadas
Por suspiros, beijos e gemidos;
Fogo que aguça meus sentidos
E faz mais veloz as estocadas.

Tudo fica longe, o mundo gira.
O prazer maior se aproxima,
Vem chegando forte num espasmo.

Tesa como a corda de uma lira,
Cume do prazer, ápice do clima;
Estremeces num profundo orgasmo.


Frederico Salvo

3.2.11

Rompantes -III-

o macaco é o homem
sem macaquices
elaboradas.

**

De tanto esperar pela sorte
Acabou conhecendo
A rima que a vida fez.

**

o louco
é um revolucionário
patológico.

**

a chuva
é a água
ressuscitada.

**

Frederico Salvo

1.2.11

Incompatibilidade


Quando eu partir, solidão (parceira minha),
Talvez em noite alta ou tarde desmaiada,
Numa manhã de sol ou fria madrugada,
Entrego ao teu cuidado os frutos desta vinha.

Apago estes passos tortos da estrada,
Devolvo esta surrada ilusão qu’eu tinha,
Entrego esta esperança que sempre foi minha
De mão beijada a ti no fim desta jornada.

Deixo aqui neste mundo um grito de saudade,
Desemaranho o espírito, livro-o desta rede
Na última parada, salto desta linha.

No fim desta eterna incompatibilidade,
Eu vou de encontro à água que mata minha sede.
Enfim desato os nós e deixo-te sozinha.


Frederico Salvo