10.1.11

Mesmo assim


Cada vez que os olhos me dão a sua imagem
Uma paz avassaladora toma forma.
Uma febre renovadora, sã e morna
Vem fazer deste peito meu, sua paragem.

Minha tez envolve um espírito fecundo,
Minha boca lança palavras indizíveis,
Meu ouvido capta sons de outros níveis,
Outras cores, novos matizes em meu mundo.

Mesmo sendo grande a ilusão, de amor se vive;
Mesmo sendo dura, a vida, amor entorna;
Mesmo sendo rude, a paixão, amor difunde.

E assim, esta insensatez que sobrevive
Dá mais fôlego, anima e a alma orna
Deste sentimento vão que nos confunde.



Frederico Salvo

7.1.11

A terra que ninguém vai


Na terra que ninguém vai
Há apenas uma verdade.
Apenas uma certeza solitária
Que por vezes não se traduz
Em felicidade.

Na terra que ninguém vai,
Frustrações remediadas,
Antídoto contra impossibilidades
Que tecem um arremedo de vida,
Verossímeis, mascaradas.

Como pode ser tão distante
Se posso senti-la num abraço?

Feliz de quem acha o caminho
Da terra que ninguém vai.
Vai ser um, mas não sozinho,
Pois quando lá uma vida
Se encontra com outra vida,
De dentro dela não sai.


Frederico Salvo

3.1.11

Pêndulo


Por que não destes cedo enquanto éramos
Tão crédulos, a certeza em ponto máximo
De que, a bem da verdade, estivéramos
Do ápice do amor a andar tão próximos?

Por que não ensinastes a rica métrica
Que a vida em versos fez de forma prática,
Mas nossos olhos cegos, mentes estáticas
Não souberam apreender de modo lógico?

Perdoa-nos Pai se fomos insensíveis
E tornamos vossas pistas invisíveis,
Tendendo a dois lados como um pêndulo.

Agora por trilhas inimagináveis
Que antes eram hipóteses improváveis,
Vagueio eu, sozinho, ainda incrédulo.


Frederico Salvo

1.1.11

Marinha



As franjas prateadas
a dançarem ao sabor do vento
pelo canal, dão,
segundo quem sabe,
sinal de mau tempo.
A mim não escapa
A beleza rara.
Meus olhos
acostumados aos montes
se encantam
com as coisas aqui da marinha.
Um ritmo diferente,
um estímulo pouco encontrado,
um olhar contracorrente.
Da varanda me arrisco,
num mergulho seco,
a desvendar,
pela palavra,
esse oceano novo.

**

Braçadas largas e firmes
levam minh’alma
para além do alcance da vista.
Lá onde os redemoinhos
engolem os sonhos.
Meu corpo fica...
...aquém do limite
da bóia branca
que repete silenciosa
o alerta materno:
“Querido. Não vá além daí”.

**

Desde os passos mínimos
marcados na areia de Copacabana,
passando pelas bebedeiras
adolescentes no litoral Capixaba,
pelos beijos ao luar melado
nas praias de Búzios.
Desde sempre há
esse encantamento pelo mar.
Imenso mar
onde todo o peso do dia-a-dia
é deixado,
onde as vagas resgatam
o vigor esquecido,
e de onde um outro ente
surge renovado.

**

Eu aqui e agora
Vendo as franjas prateadas
Desfilarem pelo canal,
sou o próprio mar.
Um oceano de lembranças para onde
todos os rios passados convergem,
onde todas
as embarcações vividas navegam,
e onde a certeza do todo
repousa submersa
nas profundezas
que meus olhos físicos
não alcançam.

**

Eu sou o mar...
a olhar para si mesmo,
da varanda,
nas franjas prateadas
das águas do canal.



Frederico Salvo

24.12.10

Insânia (poema musicado)



Amigos leitores,
Encerrando o mês de dezembro e conseqüentemente o ano de 2010, deixo para vocês o poema "Insânia" de autoria do meu amigo e poeta carioca José Silveira e que tive o privilégio de musicar. Agradeço a todos pela presença durante esse ano e desejo um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de saúde e paz a todos.
Abraço fraterno!
FS








Eu criei na minha inspiração
Lapidei teu corpo
com cinzéis.
Fiz-te verdade,
louca imaginação.
Possui tua carne em sonho bom.
Possuíste-me a alma
Enlouqueci
na calma
quando te vi luz e
poesia.
Cegaste-me o olhar
E eu dormi.
Perdi-te ao acordar.
Morri.
Para nunca mais sonhar.
Amar-te-ei!?
Utopia!
Eu...
Eu só...
Só eu.

Frederico Salvo e José Silveira


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21.12.10

Sopoema


(Puta dor de cabeça
essa de me meter
a compor versos).

Deixo a pena correr solta
Enquanto preparo
Um cozimento.
Um engrossado de palavras
Suculento poema novo
De tempero agridoce.
Cheiro inebriante
A envolver o ambiente.
Ponho-me a giroverter
A mistura.
Dela já me adentra
às narinas o vapor espesso,
Uma cortina densa
Ao meu olfato.

Depois me sento
E saboreio o poema
Ouvindo
O som inconfundível
Do sorver o caldo.


Frederico Salvo

19.12.10

Rompantes - I -




Indigestão de peixe
é comer minhoca
com recheio de anzol.

**

Pontadas nas costas:
motivo maior
da insônia do faquir.

**

Por trás do feroz leão
Havia uma avestruz
Com a cabeça no buraco.

**

Um mar seco
Cabe inteirinho
Dentro de uma concha.

**

Se se visse no espelho
A barata entenderia
O porquê da chinelada.

**

Frederico Salvo

17.12.10

Alquimista


Assomam-se
as horas perdidas
e da minha boca
nenhuma palavra
a salvo.
Apenas
esse murmúrio rouco
das mesmices estonteantes.

E eu com a roupa da alma...
pele, pura e simples,
invólucro
desse tantinho
de universo
esmiuçado em um corpo
que tange
as cordas da vida,
entoo
o mesmo canto possível
que já conheces há muito.

O teu entendimento
é o cálice que recebe
o sumo do que sou,
e me bebes com expressão
de prazer no rosto.

Alquimista
a separar a pureza da uva
da acidez corrosiva
e estonteante
do meu álcool.


Frederico Salvo

12.12.10

Chão de incerteza


Enquanto a vida passa, ficam esses momentos.
Somente alguns instantes; fugazes navios
Rasgando bravamente esses mares bravios
Fazendo esquecidos todos os tormentos.

Um gosto prazeroso brincando na boca
E a ânsia adormecida em berço embalado
Por mãos que se confundem, por gestos desejados,
Nos únicos minutos dessas horas poucas.

Depois vem o vazio, o chão de incerteza,
O navegar sombrio em águas estrangeiras
E a vaga melodia d’um sentimento solo.

Espalhadas lembranças, soltas sobre a mesa,
De cada verso meu se apossam ligeiras...
Nas tramas d’um soneto breve me consolo.


Frederico Salvo