10.5.10

Oração



Não há conformismo em saber-me finito,
Quando à noite, insone, essa flecha ataca.
Quem sabe fazer essa tormenta fraca?
Quem pode amainar esse peso maldito?

Deram-me um rosário e por vezes rezo.
Frágil, entrego-me às mãos do Bendito:
_ Acalma, Senhor, esse meu peito aflito.
Envolva-me em paz, essa a que tanto prezo.

De fato se dá um benfazejo alívio,
Com’uma canção a serenar-me a alma
Que, ora mais leve, gira num remanso.

Num halo dourado, claro, indizível,
Meu corpo levita numa serena calma,
E enfim, já inerte, em sonho, descanso.


Frederico Salvo

8.5.10

Incompletude


Como entender essa avalanche de sentido
Que traz à tona essa porção de entendimento?
Ter essa voz aqui tão perto em meu ouvido,
Ser como um galho arrebatado pelo vento.

Tal como a terra ao receber a chuva fria
Depois de um dia escaldante (sol a pino).
Como não ter na boca um riso de alegria
Como um daqueles do meu tempo de menino?

Não se explicam certas coisas. Não se sabe
Como é a face do amor, nem se concebe
Qual a razão dessa eterna incompletude.

Por que querer guardar inteira se não cabe
No coração, nem muito menos se percebe
Por onde esvai essa emoção que nos ilude?


Frederico Salvo

6.5.10

Mão


Mão.
Dinâmica e perfeita.
Exata ferramenta,
Da sintonia fina da minúcia
À força impensável e violenta.
Atalho ao divino quando posta
À outra que comunga em apelo.
A trilha do carinho que no peito
Nasceu e que por ela, agora imposta,
Irá levar o amor a quem se gosta.
Bendita desmesura em desvelo.
Intensa na cadência ritmada
Do dedilhar das cordas desse pinho.
Da energia, invólucro perfeito,
Que guarda a saudade num aceno,
Transforma-se em gesto obsceno
Ou faz de outra mão, cálido ninho.
Mão.
Que vaga pela tua pele nua,
Estende-se no ar pedindo a tua,
Enxuga o pranto teu...
Devagarinho.


Frederico Salvo

1.5.10

Sagrada ingenuidade


Quero a criança que existe em mim.
Sim. Aquela que olhava as ruas ensolaradas
E respirava o vento matinal
Sem preocupações metafísicas,
Sem entender os adultos.
Quero que ela saia numa explosão transbordante,
Banhando beneficamente minha alma,
Cicatrizando feridas emocionais.
Quero que corra risonha em minhas veias,
Irrigando todo o meu corpo
Daquela sagrada ingenuidade.


Frederico Salvo

21.4.10

Pois é (poema musicado)




Pois é!
Será o fim?
Amar será pra mim?
Escaldado outra vez
Pela minha insensatez,
Amargurando o desgosto,
Tendo estampado no rosto
A minha dor.
Cansei de ser o retrato
Da desilusão,
Cansei de pagar o pato
Por apostar na paixão.
Acho que agora emendo,
Sei que o amor é um mel,
Mas estou indo embora.
"Cadê" o meu chapéu?

Sei que errar é humano
E meu desengano
Foi por que errei.
Sei que é difícil dizer:
Dessa água jamais beberei.


Letra e música: Frederico Salvo
Violões: Frederico Salvo

19.4.10

Antessala


O que dizer desses olhos que eu não vejo
Ou dessas mãos que não tocam meus cabelos?
O que falar dessa boca que eu não beijo
Ou desses pés que não roçam os meus pêlos?

O que dizer desse corpo que eu não sinto,
Dessas palavras exatas que eu não ouço?
O que fazer da bonança que eu pressinto,
Mas que se esvai no hiato d’um soluço?

Não digo nada. O silêncio é meu refúgio.
A longa pausa na pauta d’um prelúdio
Ou antessala desse sonho que não passa.

Se me tortura a pontada do espinho,
Eu sigo e sorvo outro trago desse vinho
Que inebria e transborda minha taça.



Frederico Salvo

17.4.10

À beira do caminho


A flor mais simples e singela guarda
O esplendor de toda a natureza.
Sob insignificante e simplória farda,
Reside a face oculta da beleza.

Nos matizes de pouca relevância,
Na roupagem de parca realeza,
Desprovida de qualquer exuberância
Repousa disfarçada a grandeza.

Mas o viajor que cruza a estrada,
Nem a repara à beira do caminho;
Prefere à flor que pende cobiçada,
Mesmo que fira-lhe a mão com seu espinho.


Frederico Salvo

13.4.10

O mundo é de quem não sente



Qual terá sido o contexto em que ele disse:
“O mundo é de quem não sente”.
Teriam pisado em sua sensibilidade?
Teriam os espinhos e injustiças
Ferido seu coração de poeta?
Só sei que, em silêncio, deixou correr sua pena
E entregou mais um raro poema.
Depois adormeceu...
Sem perceber que o mundo era muito mais que seu.

Frederico Salvo

11.4.10

Nó


Se eu pudesse encontrar o fio da meada
Nesse intrincado nó. Tranqüilo desfazê-lo.
Trazer a linha toda ao corpo do novelo
E a trama, novamente, começar do nada.

Poder fazer de mim o meu próprio modelo.
Usar o que aprendi em cada tricotada.
Traçar o fio, então, de forma apurada.
Fazer o meu melhor do hálux ao cabelo.

Saber exatamente o ponto a ser usado:
Trançado, retilíneo, fixo ou cruzado,
Nas pregas do bordado, cós... em cada dobra.

Pudesse ser assim e tudo então seria
Na vida, certamente, como eu gostaria,
Mas sábio Deus, por fim, nunca deu asa a cobra.


Frederico Salvo