10.4.10

Desvario


Como entender a tua brejeirice
Enclausurada num furor de Beija
E a inocência leve de Alice
Subjugada a um qualquer que seja?

Como entender teus múltiplos deslizes,
A tua lógica dissimulada
E o passado, que habita em cicatrizes,
Aberto em ardente e tortuosa chaga?

Não há caminho, nunca houve nada;
Só um errante e cego desvario
Que se perdeu na torpe madrugada.

Um sonho louco, breve, fugidio.
Uma verdade crua, mascarada...

Realidade rude e vil.... no cio.


Frederico Salvo

7.4.10

Lar


Aqui, onde mora a atemporalidade,
Nesse espaço de isenta ignomínia,
Minha porção de firmamento,
Meu quinhão da ancestralidade.
Aqui, onde me aflora a criança
E me dispo da sociabilidade,
Há essa calma no final do dia,
Esse afresco de luminosidade...
Meu lar, meu lar querido,
Onde repousa o meu corpo,
Onde aporta o meu espírito.
Bendito seja meu lar...
Esse protótipo do infinito.


Frederico Salvo

5.4.10

Pela palavra


Eu transcendi a esse mundo tosco,
Rude cenário de astros decaídos.
Eu disse não a esse brilho fosco
E fiz brilhar faróis adormecidos.
Pela palavra rejeitei o medo,
Deixei morrer o homem preocupado;
Vi soçobrar a ira bem mais cedo,
Antes que o céu, em mim, fosse nublado.
Refugiei-me em versos, fiz abrigo,
Em cada tema esgotei meus ais,
Que em poemas vêm brincar comigo.
A brisa leve sopra muito mais,
Sou de mim mesmo muito mais amigo,
Pois hoje atraco o barco nesse cais.

Frederico Salvo

3.4.10

Liberdade


Daqui só desço por necessidade,
Porque me queima a chama desse mundo.
Daqui do alto não sou vagabundo
E vejo todas as luzes da cidade.
Daqui só saio por sobrevivência,
Porque, enfim, não há outra saída.
Enxergo a volta no romper da ida,
Pois me maltrata a subserviência
A esse jogo de cartas marcadas,
A esse baile de faces mascaradas,
A esse mar de forças divididas.
Aqui no alto, sopra a liberdade,
Que me sustenta, lança claridade,
Planta a verdade, cura as feridas.


Frederico Salvo

1.4.10

Das incertezas do amor - III -


Esse amor que você sabe dar,
Pode dar e não dá...
É exatamente o amor que transforma.
Esse que lhe põe em risco,
Que sempre se retêm nos seus gestos,
Na sua língua.
Esse amor que vai se acumulando
E que em determinado momento
Parece querer romper a barragem,
Mas que, por sua sorte, vai se esgotando
Nos ouvidos do seu terapeuta.
Esse amor que asfixia
É o mesmo que revitaliza os alvéolos
E que alimenta as células de vida nova,
De fôlego benfazejo, e pelo qual
A vida lhe fez recear.
Esse amor que se perde no ar
Feito um balão de gás,
É também o que leva atado em si,
Por um céu azul de aparente calma,
O seu velho e surrado sonho de felicidade.


Frederico Salvo


27.3.10

Arte (poema musicado)

(tela de Van Gogh)




Arte é a forma mais bonita
De expressar o que há em vida.
Vive em todo coração.
Arte explode em todas as esquinas,
Nos teatros, nas vitrines,
Poesias e canções.
Arte num chute a gol,
Arte na voz do cantor,
Num poema,
Num batuque à beira do mar
Olha a arte a reinar...
Arte: passado e futuro.
No escuro...
... a arte de amar.

Arte estandarte precioso,
Nesse mundo o mais gostoso,
Nessa vida o que se tem.
Arte em qualquer parte;
A natureza é o exemplo mais pulsante,
É constante inspiração.
Arte no brilho do sol,
Arte também no sabor da pequena fruta.
Arte à beira do mar,
Onde vão se encontrar...
Duas das artes do mundo:
Um samba...
...e a água a rolar.


Letra e música: Frederico Salvo
Violões e voz: Frederico Salvo

25.3.10

Auto-retrato


Enxergas bem e deitas pincelada
A cada olhar que lanças ao espelho,
Mas tua tez um tanto amarelada
Na tela, tu carregas em vermelho.
Os olhos têm um brilho diferente
Daquele que percebes na imagem,
Pois eles são os olhos que tu sentes
Assim como se fossem uma miragem.
E na manhã chuvosa vais traçando,
Em cores vivas vais esmiuçando
Detalhes teus na mais intensa calma.
E a obra ao findar, no cavalete,
Te chega como um canto em falsete:
Sem perceber... pintaste tua alma.


Frederico Salvo

20.3.10

Carpe Diem


Ouça agora o que tenho a lhe dizer,
Pois não sei se adiante me virão as mesmas palavras.
Dispa-se e me entregue a sua volúpia
Deixando nossas bocas se inundarem uma da outra,
Já que não sabemos se haverá
Outro momento de tamanha beleza.
Solte as rédeas e deixe correr desenfreado o seu desejo,
Pois na sôfrega magia desse beijo
Descansa nossa momentânea verdade,
Repousa nossa presente certeza.


Frederico Salvo

17.3.10

Clarabóia


Ele esperava.
Não sabia o quê,
Mas esperava.

Havia um vazio incômodo,
Uma clarabóia
Vazada no peito.

Ardia nele, perene,
A chama d’um sonho
Que o conduzia.

Andava pelo parque
Ou pelas ruas.
Era um cidadão comum

Que amava Beatles
E colecionava insetos...
Espetadas reminiscências.

Passou uma vida assim,
Esperando pelo que não sabia,
Com os raios a cruzar a clarabóia.

Um dia, numa madrugada órfã,
Ela chegou sorrateira,
Esgueirando-se por trás da cortina.

Deitou-se calmamente sobre ele
Sem dizer um nada...

Num estertor derradeiro
Ele, enfim, sentiu-se completo.


Frederico Salvo