10.10.09

Motivo


Em mim o mundo – tu disseste –
Parece fazer sentido.
Eu digo: em ti a vida veste
Áureo e lindíssimo vestido.

Em mim o outono se fazia
E me despia inconteste.
Em ti o amor adormecia
E embevecida tu me deste

A chave do fazer-me novo,
Da esperança a semente.
Eis o motivo porque sorvo
E vou degustando quente

Esse amor que é meu leste,
Meu esteio e meu estorvo.


Frederico Salvo


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Direitos efetivos sobre a obra.

9.10.09

O país do faz pra mim


Ah! Que triste fim. Que triste fim.
Viver no país do faz pra mim.
Lá tem ovo, tem mandioca,
Tem batata e amendoim,
Mas não tem sopa, nem paçoca,
Não tem purê, nem quindim.
É o país da riqueza,
Dos tesouros no jardim,
Mas falta feijão sobre a mesa,
Sobram preguiça e capim.
Lá tem calor à vontade,
Tempo bom e eterno assim,
Mas falta a luz da verdade,
Há um breu maior enfim.
Tem o progresso por conduta
E igualdade por fim,
Mas com tanto filho-da-puta
Roubando; Será que sim?
Eu faço a denúncia em verso,
Pois prosa não é pra mim.
Por isso, amigo, te peço:
_Piedade! Faz pra mim?


Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.

7.10.09

Entrevista no site Luso-poemas


Bom. Como escrevi no comentário sobre a entrevista de Maria Verde, penso não ter tanta coisa interessante a contar, mas passo a fazê-lo aqui no intuito de me dar a conhecer a todos amigos desse sítio, que tem sido para mim um recanto de muito aprendizado.
Nasci no vigésimo terceiro dia do mês de julho do ano de 1964. Sou natural de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais. Sou fruto de uma família simples. Minha mãe, Lina, natural de Nova Lima, cidade próxima à Belo Horizonte, era professora primária e também cabeleireira nas horas vagas e fins de semana. Meu pai, Paulo, natural de Curvelo, município situado exatamente no centro do Estado de Minas Gerais, trabalhava no comércio e era vendedor viajante. Tenho um irmão, Leonardo, que hoje reside em Curitiba no Estado do Paraná. Das lembranças da minha primeira infância as principais imagens são as que me vejo nos ombros do meu pai, passeando pelas ruas ensolaradas do bairro; a cabecinha branca da minha querida e saudosa avó Petrina, que fazia sempre questão de que me recostasse em seu colo, mesmo depois de mais velho; as idas ao estádio de futebol em companhia de minha tia Lúcia, fanática pelo Cruzeiro, time pelo qual tenho grande carinho. Meus primeiros anos de estudo aconteceram no Colégio Municipal de Belo Horizonte, numa época em que o ensino público era o que havia de melhor, realidade que, infelizmente, é hoje exatamente inversa. Aos treze anos ganhei de minha avó Petrina o meu primeiro violão e a possibilidade de começar a aprender o instrumento. Num primeiro momento não gostei da idéia, mas depois tal fato faria muita diferença. Por esse tempo comecei a conviver com alguns amigos que tocavam e também se arriscavam com algumas composições próprias. Passei a me interessar pela atividade e a estudá-la. Foi nessa fase que iniciei um contato maior com a poesia nas composições das minhas primeiras músicas. Formei juntamente com esses amigos o Grupo Morro Velho, nome retirado de uma canção do grande cantor e compositor Milton Nascimento, que exerceu sobre todos nós grande influência. Durante toda a década de oitenta tivemos um intenso convívio, fazendo apresentações, participando de festivais musicais por todo estado de Minas Gerais e também tocando pelos bares e casas noturnas da minha cidade. Foi um tempo inesquecível. Uma grande paixão por tudo isso me levou à Escola de música da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estudei por quatro anos. Também fui funcionário da Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais, onde ingressei por concurso público aos dezessete anos de idade. Por lá trabalhei até a extinção da entidade que aconteceu no governo do então presidente Fernando Collor de Melo. Esse fato me levou a abraçar uma oportunidade de emprego na cidade de São Paulo, onde residi por quase uma década. A passagem por lá me rendeu o reencontro com meu pai, que poucas vezes vi na infância e adolescência, e que reside por lá desde os meus sete anos, quando ele e minha mãe se separaram. Em São Paulo também aconteceu o nascimento de meu amado filho Bruno. De volta a Belo Horizonte, numa difícil situação de desemprego, tive a felicidade de conhecer e trabalhar com massoterapia, atividade a que hoje me dedico e que se tornou uma ótima profissão. Ainda estudo a matéria e também acupuntura pelo Instituto Mineiro de Acupuntura e Massagem. – IMAM. Cheguei ao Luso-poemas há quase dois anos e por aqui fiz boas amizades. Minhas poesias saíram da gaveta através do incentivo da minha querida amiga Márcia Oliveira, que eu já conhecia antes de chegar por aqui e que, um dia, ao ler alguns poemas meus, me convenceu a levá-los ao conhecimento de outras pessoas. Passei a fazê-lo e acredito ter valido à pena. Para minha surpresa estou eu aqui hoje, escolhido por uma colega inteligente e capaz, pela boa aceitação dos meus versos. Essa seria a linha mestra da minha trajetória que certamente tem agregada a si tantos outros fatos e emoções diversas.


Frederico Salvo, este mineiro talentoso, surgiu no site luso-poemas em 23 de Janeiro de 2008, dizendo o seguinte sobre si: “No meu sonho mais puro e sincero/Quis ser, inocentemente, eterno./Forte eu era. Inabalável sempre./Ao acordar, optei por ser apenas um homem.” Desde então, com mais de trezentas publicações no luso, tem encantado a todos com sua escrita talentosa e, como costumo dizer, elegante. Elegante pela escrita cuidada, clara e musical, abraçando temas universais diversos, expostos pelo seu olhar particular. Em seus poemas podemos ler algo profundamente sentimental ou saudosista, com textos sobre sua terra, sua infância, amores, amizade, paternidade, entre outros; bem como belíssimas homenagens a artistas das letras e da música como Dorival Caymmi, Drummond, Tom Jobim... A meu ver, o que concede unidade a poesia do Frederico é a busca do eu-lírico a fim de conhecer-se a si mesmo, singrando temas bastante meditativos. O passado é um assunto recorrente em sua poesia, através de reminiscências da sua infância e da sua terra natal, como observado nesses versos “Ainda somos as crianças, querida;/Que outrora fomos num recente passado./Ainda ouvimos as remotas cantigas/Agora em ritmo tropo, sincopado./ Trocamos balas, doces por prazeres/Outros, porém não menos infantis;/Fazemos birra por mortais quereres/Tão sutilmente... (nem percebo que fiz).” Frederico Salvo carrega nas veias todas as características inerentes a um grande poeta de mente criativa e produtiva que se mostra à vontade para manipular a língua e a linguagem, dentro de um suporte ideológico transparente, mas longe de qualquer lugar comum.


- Frederico, ao ler sua biografia, senti a emoção de suas palavras, ao falar da sua querida avó Petrina e mais ainda, do seu pai, com quem durante a infância teve pouca convivência, mas com momentos muitos ricos, como a lembrança que você guarda de passear pelas ruas ensolaradas de sua terra natal, sobre os ombros do seu pai. Quer nos falar dessas duas pessoas tão importantes em sua vida?

É sempre uma grande emoção falar a respeito da minha querida e saudosa avó Petrina. Mulher de coração e docilidade imensuráveis. Foi ela quem enxergou em mim a sensibilidade para a música e me deu a oportunidade de desenvolvê-la. Mesmo com sua pouca instrução era capaz de dizer grandes verdades como quando, por exemplo, bem no meio de sua oração diária, vendo algum deslize na minha imaturidade, soltava : “ Um homem mentiroso se perde em si mesmo”. Pequenos toques que acredito terem contribuído na construção de meu caráter. Em síntese era ela o centro gravitacional de toda a família. Um sol que brilhou intensamente e que mesmo depois de se pôr, ainda faz sentir a dádiva do seu calor. Quanto a meu pai, guardo muitas lembranças boas. Acontecimentos da infância, alguns poucos encontros na adoloscência, o convívio maior quando estive em São Paulo. Há entre nós atualmente uma grande amizade. Por muito tempo alimentei uma certa mágoa, por ele ter se afastado tanto, mas hoje sei que teve seus motivos. Perdoamo-nos e isso para mim representou o fim de um grande descontentamento. Registrei essa passagem há algum tempo no soneto “O cisco e a trave”.

Tive dúvidas sim. Não as escondo.
Por ter ferido à mágoa o peito ardente.
O orgulho a me prender sob os escombros
E o não, feito parede à minha frente.
Por todos esses anos, ressentido,
A esperar de ti algo que fosse
De encontro a todo tempo ora perdido,
Ao âmago da dor que a vida trouxe.
Cansado de esperar corri o risco
E fui estar contigo resignado,
Disposto a acabar com esse entrave.
E foi assim então, meu pai amado,
Que do teu olho eu tirei o cisco
E tu do meu, enfim, tiraste a trave.[/color]

- A música para você é uma grande paixão, que como vimos, o levou a fazer “apresentações, participando de festivais musicais por todo estado de Minas Gerais e também tocando pelos bares e casas noturnas da minha cidade... Uma grande paixão...”. Sendo assim, há alguma influência desse amor à música ao mundo da poesia?

Na verdade se não houvesse a música, não haveria também a poesia. Meus primeiros versos nasceram da necessidade de aplicar imagens às melodias que fui criando no violão. Desde o primeiro momento em que aprendi a tocar alguma coisa, tive um grande impulso no sentido de compor. Ainda hoje quando me assento a burilar as cordas do instrumento me vêm melodias novas que passo então a desenvolver. Muitas jamais tiveram letra, mas outras tantas foram preenchidas pela palavra. A poesia hoje tem papel principal e faz parte do meu dia-a-dia, mas acredito mesmo que se não fosse através do viés da música não a teria desenvolvido.

- Frederico Salvo, uma das características que me sinto à vontade de atribuir a você é a escrita elegante e bem cuidada, de olhar amplo sobre a vida e os homens, sendo o soneto uma das formas mais usuais de sua poesia. Podia nos falar um pouco disso?

Gosto particularmente do soneto, pois, além de uma bela forma estética de se fazer poesia é também, para mim, uma grande brincadeira. Um desafio. Quando alguma situação desperta meus sentidos, passo a desenvolvê-los em versos, visando satisfazer as rimas e à métrica. Além de uma boa forma de me expressar é também um grande passatempo. O conteúdo é sempre aquele que mexe profundamente com a maioria, mas que vão transcorrendo pela vida como se fossem naturais. A desigualdade entre os homens, a hipocrisia, o desamor à natureza e a nossa insistência ocidental de nos vermos à parte dela, a incoerência do ser humano frente às necessidades impostas pela vida real. Há também, como não poderia deixar de ser, o tema maior de quase todos nós poetas: o amor. Gosto também de me aventurar pelo erotismo às vezes. Esse aqui descreve bem o exercício da composição dos sonetos. Deixo como complemento à minha resposta.
OS QUATORZE VERSOS

Bem aqui nessa caixa hermética
Cabem sonhos, idéias e amores.
Cá dentro dessa forma estética
Avizinham-se risos e dores.
No ígneo cadinho da vida
Liquefaz-se a verdade que somos
E aqui a matéria escolhida
Se reparte em pedaços ou gomos.
Apesar de restrito o espaço
Trago sempre atada num laço
Toda a trama a que me comprometo.
Cabe assim esse mundo inteirinho,
(Como um odre a conter todo o vinho)
Nos quatorze versos do soneto.

- Frederico, do que se alimenta a sua escrita? Ou seja, sua poesia se inspira em algum poeta que você admira? Também pode nos dizer em que ponto sua vida e sua obra se confundem?

O grande compositor Antônio Carlos Jobim dizia ouvir pouca música para que sua inspiração não sofresse demasiada influência e pudesse, dessa maneira, chegar-lhe clara e com naturalidade; para que realmente tivesse a sua “cara”.Sei que bebeu na fonte de Heitor Villa-Lobos, principalmente, além de outros grandes da música popular brasileira. Mas, sem sombra de dúvidas, a música do Tom tem sua assinatura. Quem ouve uma melodia composta por ele, quase que de imediato sabe tratar-se de uma obra sua. De certa forma tento fazer assim também. Apesar de admirar sobremaneira poetas como Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Vinícius de Moraes, Mário Quintana, dentre outros, quase nunca me inspiro em um deles para fazer meus trabalhos. Deixo vir espontaneamente e acredito que consiga dar aos meus poemas um traço pessoal que os caracterizam. Sobre a segunda parte da pergunta, posso afirmar que é tão tênue a linha que separa o cidadão do poeta que nem sei qual deles está a lhe responder agora.

- Uma questão que acho de suma importância, e sendo assim, não poderia deixar de fazê-la, diz respeito ao seu olhar sobre a sociedade. O que você tem a nos dizer sobre o mundo e as pessoas?

Acho sinceramente que a maioria de nós se distancia de si mesmo para viver em sociedade.A luta pela dignidade, a necessidade imediata de provir o amanhã, muitas vezes nos leva por caminhos tortuosos que, ao serem trilhados, passam distante daquilo que verdadeiramente gostaríamos de ser e viver. Ao tentarmos “voltar” para perto de nós mesmos, nos vestimos de egoísmo na busca do acúmulo, dos bens materiais, para que, num hipotético dia, possamos enfim, resguardados por tudo isso, estar na pele daquele que sonhamos outrora e que, de certa forma, se perdeu no turbilhão que o mundo faz. E acho que por sermos assim o mundo é o que todos sabemos que é. Pelo menos para mim a poesia significa um passo na busca desse reencontro. Meu trabalho hoje também me leva nessa direção. Levo uma vida muito mais simples de que alguns anos atrás. Tenho me sentido melhor assim.

- O que o espaço-luso poemas é para você, qual a importância ou contribuição que esse espaço literário tem em sua escrita?

Tirei meus poemas da gaveta e os trouxe para cá, descobrindo que, a despeito de minhas dúvidas sobre a qualidade deles, muitos gostaram e ainda hoje me elogiam. Fico muito feliz por isso e tendo então a querer dar continuidade a essa atividade. Escrever é uma forma de trazer à luz o que me vai no íntimo, o que proporciona grande satisfação. Portanto o Luso tem sido muito importante, visto que aqui, sob olhar de pessoas que como eu gostam e vivem poesia, tenho a oportunidade de dar continuidade a esse exercício. Também não posso deixar de dizer a respeito das boas amizades que fiz. Pessoas que mesmo de maneira virtual, passaram a ter grande importância na minha vida. Ressalto ainda o fato de que nosso contato com as pessoas segue por um caminho inverso ao convencional, mas muito saudável e interessante. Nesse espaço nossa alma é que se dá a conhecer primeiro e isso a meu ver, é razão que minimiza em boa parte certos tipos de preconceitos.

- Como é de praxe. Qual o livro ou autor preferido? Filme preferido? E música preferida?

Puxando a memória me vêm os seguintes livros: Vida secas de Graciliano Ramos; Médico de homens e almas de Taylor Caldwell; Dom Casmurro de Machado de Assis; Sagarana de Guimarães Rosa; O grande mentecapto de Fernando Sabino; Budapeste de Chico Buarque de Holanda; ... são os que me vieram no momento.

Com relação aos filmes, posso citar: Um sonho de liberdade, do diretor Frank Darabont, onde os atores Tim Robbins e Morgan Freeman, dão um show de interpretação. Outro que marcou muito foi Papillon com os grandes Steve MacQueen e Dustin Hoffman; Outro ainda: A lista de Schindler de Steven Spiellberg.

Vou citar duas canções preferidas. Uma onde há apenas melodia, aliás um dos temas mais bonitos que já ouvi e que se chama Day dream. Faz parte do repertório do álbum Togethering, onde tocam juntos o guitarrista Kenny Burrell e o saxofonista Grover Washington Jr. A outra, uma gravação antológica do meu compositor preferido, Tom Jobim, onde ele canta com a saudosa “Pimentinha”, Elis Regina: Águas de março.

- Frederico, quais suas ambições e sonhos para o futuro?

Envolvi-me de forma muito intensa com a massoterapia. Trabalho nessa atividade já há cinco anos. Descobri que proporcionar bem-estar à outras pessoa através do toque é uma das melhores coisas que já fiz na vida. Por isso pretendo continuar me aprofundando nos estudos a respeito da Medicina Tradicional Chinesa, que é a linha com a qual trabalho, e ser um melhor profissional a cada dia. Também pretendo retomar o caminho da música que ficou um pouco de lado nos últimos anos e que é uma das maiores paixões da minha vida. Tenho sonhado também com a possível publicação de um livro de poesias, já que através dela tenho aprendido a me conhecer melhor. Enfim minha preocupação maior não é exatamente com o futuro, mas sim a de viver um presente com qualidade e fazendo por acrescentar, não só à minha, mas a vida de todos aqueles com quem convivo. Seja no real ou no virtual. Para finalizar quero deixar aqui, já que falei bastante sobre música, a gravação de uma composição minha. Rochedo fica como um presente meu a todos os amigos desse maravilhoso espaço que é o Luso-poemas. Foi um imenso prazer poder abraçar essa oportunidade.

4.10.09

A primeira pedra



Há tanto tempo ergo-me sedento,
A fim de ouvir, do amor, algum relato
Que esteja além do murmúrio do vento,
Que lhe traduza o conteúdo exato.
Já exauri há muito o pensamento,
E procurei nas águas do regato;
A pele pus à força dos ungüentos
E de Romeu revi todos os atos.

Quando atiraste a primeira pedra,
Feriu-me a alma um coração ingrato.

*

Perdi o senso, dei a mão sensível
À palmatória, quando a mocidade
Guardava a dor em pote invisível
E seduzia-me vã felicidade.
Eu vi a face dura, irascível
Quando desilusão vestida de verdade
Tornou o meu caminho intransponível
À margem d’oceano da saudade.

Quando atiraste a primeira pedra,
Feriu-me a alma um coração ingrato.

*

Depois de tudo caminhei sozinho
Levando minha nau por outros mares,
De outra mão senti outro carinho
Provei das frutas de outros pomares.
Mas de outra uva, precioso vinho,
Jamais provei em nenhum dos lugares
Por onde andei a procura de ninho
Nem teu sabor em diversos manjares.

Quando atiraste a primeira pedra,
Feriu-me a alma um coração ingrato.

*

Agora qu’envelheço a cada dia
Eu vou seguindo assim resignado
O verdadeiro amor é fantasia
Ao infinito vai o seu legado.
Essa lembrança às vezes minha guia
Me atira nu nas águas do passado
E eu me afogo assim em poesia
Por ter um dia tanto, tanto amado.

Quando atiraste a primeira pedra,
Feriu-me a alma um coração ingrato.



Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.

28.9.09

Vida crua


Por trás de um sorriso escancarado
Há sempre um certo tanto de amargura.
Além do dia claro, a noite escura,
Calma espera a tecer o seu bordado.
Mas, nesta mesma noite, as estrelas
Salpicam o manto negro desfraldado
De modo que o olhar desconcertado
Se enche d’esperança e brilho ao vê-las.
Aqui no peito agora é noite alta.
De algo que nem sei, eu sinto falta;
A fé espanta o breu da vida crua.
E mesmo ao sol que inunda essa varanda,
Sentindo o cheiro bom que a brisa manda,
Eu lembro a noite... olhando a clara lua.


Frederico Salvo.
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25.9.09

Oculta chama


Uma mínima parte da alma é a que clama,
Mas maior é a que não percebo: oculta chama;
Tão imensa quanto o profundo oceano
Que se agita sob turbulenta tempestade,
Mas que guarda em si intensa paz e majestade,
Muito além do que se percebe por engano.
Calmas águas na profundeza abissal,
Tão distantes do casco aflito dessa nau
Que as vagas da superfície por ora
Arrebatam e castigam ferozmente;
Onde os peixes, feito anjos, simplesmente
Não dão conta se elas vêm ou vão embora.
Se pudéssemos seguir viagem submersos
E enxergássemos além de humanos versos,
Haveria mais que mera poesia.
Para além dessa procela fustigante,
Na profunda vastidão inebriante
Onde brilha a paz na luz da estrela guia.


Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.

19.9.09

O ébrio


Na ponte, à base do pilar, vejo o negrume
Da chama que há pouco aqueceu a alma vazia
D'um corpo que ora adormece à luz do dia,
Jogado, invisível, estendido num tapume.
Alguns transeuntes passam e dizem: _ Ébrio!
Nem mesmo conhecem o porquê daquela sina.
Seguindo a razão social, a alma bovina,
Só julgam, tal qual semelhantes no sinédrio.
Ali, eis que jaz um restolho d'esperança
No seio de sã e notável temperança
De quem, num momento extremo, a dor se incumbe.
E o homem sensato então tomba sozinho
Ao gosto de intenso e injusto burburinho,
Assim como o bem, nessa vida, ao mal sucumbe.


Frederico Salvo
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12.9.09

Nostalgia


Depois de tod'esses anos ainda sinto
Estranha força que em mim floresceu um dia.
Às vezes nego que exista, outras vezes minto;
Digo a mim mesmo que é menos que nostalgia.
Ronda minh'alma um não sei que jamais esqueço;
Ferve em caldeira sobre ígnea temperatura.
Faz do meu peito, a saudade, seu endereço;
Sou como fruto que lembra à semeadura.
Gira em vestido rosado seu corpo níveo,
No mesmo tom que colore formoso lábio...
A minha volta o mundo se aquieta.
Saio do sonho assustado ao cair da tarde,
E ela, a despeito da imagem que ainda arde,
Nem mesmo sabe que atrevo-me a ser poeta.


Frederico Salvo
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5.9.09

Simplicidade


O estômago ronca ao meio-dia.
_ Hora da bóia! – Grita Maria. –
E a criançada desanda ladeira abaixo.
Comida simples, pessoas simples;
Nada de mais simples havia.
Tocava profundo a verdade:
Bem melhor simplicidade
Do que barriga vazia.

Frederico Salvo
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Direitos efetivos sobre a obra.